REVELAÇÃO

Pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.


Oswaldo Montenegro

sexta-feira, novembro 30, 2012

Solidão embrionária



Agrilhoada no arrastar das asas do tempo
Na longa espera pela libertação
A embrionária crisálida não adormecia.
E enquanto lá permaneceu
Mergulhou em doído silêncio
O silêncio de quem expõem a sua nudez
Muito além da sua escolha.
Sedosamente envolta em dolorido abrigo
A essência fez-se cativa da metamorfose.
Numa ávida sofreguidão de quem aguarda pela luz
Temeu pelo precioso momento.
E, eis que chega o tão desejado instante...
Com certa dose de ansiedade
Removeu-se do alvéolo
Abriu suas magoadas asas
E levantou o tão sonhado voo.
Entretanto, com certa mágoa e polida "indulgência"
Compreendeu que a diferença entre o voo e o casulo
É apenas uma tênue linha,
Revelando os opostos fundamentais da vida;
Onde as concepções dos mesmos se revelaram "similares"...
Um território de dolorosa solidão,
Que está muito além do ornamento das cores
E da liberdade de horizontes.

terça-feira, novembro 27, 2012

Oração de gratidão


Eu lhe sou grata...
Pelas vezes que teu olhar posou sobre mim
E enxergou além do meu aspecto
Vendo o melhor que posso ser...
O excepcional oculto pelo habitual.
Sou-lhe grata pela sua capacidade de permanecer
Abraçando-me num laço transcendente
Enquanto a sua força me reinventava...
Com cores de esperança.
Sou-lhe grata por ficar ao meu lado
Dentro da minha solidão
Abrindo-me os olhos para a glória de mais um dia
Quando a minha vontade era de dormir e dormir...
Ante a angústia de mais um dia cinzento.
Mas você me ensinou a resistir
Dando-me a resistência de um cacto no deserto
Deu-me raízes profundas...
Indispensáveis à minha sobrevivência.
Fez-me compreender que eu poderia ter cores
Apesar da aridez que se estendia a minha frente.
Sou-lhe grata pela paz do sono, meu exílio...
Quando dentro de mim habitava o caos.
Adormecendo minhas lembranças
Sedimentada em "carne viva"
Os meus meus olhos fechavam-se.
Sou-lhe grata por ser meu espelho
Enquanto eu ensaiava um sorriso diante das dores.
Um ensaio cansativo esse...
Pois por vezes era-me duro disfarçar
Uma tristeza que persistia e persistia.
Porém com o tempo aprendi
A simular a máscara do disfarce
Diante das agruras da vida.
E sorrio cada vez mais
Diante dos sorrisos retribuídos...
Que em grande maioria são sorrisos débeis, 
Desinteressados e desabitados de calor.
 Máscaras e mais máscaras!
Falta de essência ou carência?
Quem sabe...
Na verdade o mundo é uma ferida aberta
Onde cada um dói e sangra sozinho.
Pode o meu sorriso julgá-los?
Não, com certeza que não.
Pois aprendi que ficar de alma aberta
Dói bem mais que um sorriso mascarado.
E que às vezes não vale a pena expor a minha nudez.
Pois nem sempre há olhos que possam enxergar...
O matiz da mulher que há em mim.
E não saberiam discernir
 Os diferentes tons que me habitam.
Haveriam de se ter olhares
Semelhante ao olhar agraciado que me olhaste.
Trespassando o inteiro do meu profundo.
Sobrepondo-se sobre a minha sensibilidade
Para o colorido que me habita...
Apesar dos meus pesares.
Portanto sou-lhe grata por esse estado de graça
Nesse mundo bonito que você me ofereceu...
Quando suas mãos pousaram sobre as minhas
E sob as tuas mãos repousei.

Obrigado Deus meu!

O sabor do vento



Quase a flutuar ela fica em silêncio
Ao som do vento.
Que se revela um menino serelepe
Despenteando tudo a sua volta.
Sapateando descalço
Entre delicado e arredio...
Deixando nesgas de esperança nos passos. 
Ela pode sentir sua gargalhada
Espalhando no ar um cheiro de flor quando sorri.
 Colorindo todo o quintal do mundo, em redemoinho.
Movimentando nuvens mágicas pelo céu
Num estampado céu-de-mil-cores.
Com uma coloração que era só dela.
É nesse instante que ela agradece
E abre os braços para uma prece.
Numa serena felicidade distraída
Deixa-se embalar na ternura do momento.
Pois que dias assim, não lhe são freqüentes.
Dias assim tem sabor...
Deixam-lhe na alma um suave gosto de mel.
De repente o vento toca-lhe de leve a face
Num suave beijo de despedida.
Beijo assim...
Parece poema preenchendo espaços.
A alma anseia pelo próximo.
_______
Então o vento se deixa ir...
Prosseguindo em seu giro pelo mundo.
Entretanto,
Já não têm mais jeito de menino serelepe
Deixou atrás de si os devaneios.
Desloca-se agitado
Contraindo outros aromas, outros movimentos.
...
(Nada é pequeno quando se prova a ternura do vento)

domingo, novembro 25, 2012

(Eu) Fusão de fantasias


Ela é margarida colorida
Mas na intensidade é rosa.
Sim, essa sou eu.
Despindo-se da essência na mulher.
A que tem a fortaleza no coração
E a fragilidade do mesmo.
Aquela que é mais sonho que realidade.
E porque não? 
Sim...
Sou devaneio, imaginação, poesia.
Sou o livro aberto... 
A história que se entremeia de emoção.
Nas páginas escritas com afeição.
Não sou a prudente, a que exala praticidade.
Sou variedade conforme a necessidade...
Não me acerto com a exatidão.
Mas sim com a sensibilidade do coração.
Sou aquela que não aguenta se segurar por dentro.
Sou a que machuca
A que chora
Que dói e sangra as dores do mundo.
Filha da entardecida e doce melancolia.
Também sou do tipo: romântica incurável
A quase sempre vulnerável...
Na mutável dualidade de uma união.
Igualmente sou presença, companheira... 
Nas horas certas e incertas.
Não sei caminhar em linha reta, sem apego.
Meu caminho é assim: Imensidão...
Olhos que volteiam ao redor, carregados de afeição.
Demasiadamente ternura, crença, pulsação.
Carrego um espírito bordado à mão.
Onde os sentimentos acontecem
Sem necessidade de pretexto ou razão.
Sou a subjetividade da fé sem a teoria da religião.
A que crê na infinidade de Deus, 
Do caminho e da vida.
Sem complexidade ou explicação.
Todavia, indiscutivelmente concebida.
E eu sou simples assim... A palma da mão.

sexta-feira, novembro 23, 2012

Saudade é uma residente teimosa


Saudade é um sentimento que nos toca.
Mas que tão somente nos diz de outras pessoas
Outros lugares...
Saudade é uma residente teimosa.
Ela chega sem pedir licença
E invade o quintal de nossa alma.
E quando à gente percebe
Ela já assentou acampamento em nosso coração.
Aos poucos preencheu todas as lacunas.
 E acumulou-se nos cantos.
E o pior de tudo...
Saudade é um inquilino melindroso.
Com seu jeito afetado e acabrunhado
Ela fecha todas as janelas e portas.
E entre suspiros e lamentos
Censura-nos pelo presente.
Numa comoção profunda pelo passado.
Respira forte e pausadamente
Por entre ais que nos sufocam.
Nostálgica ela arrasta os chinelos pelo chão.
Numa melancolia entardecida...
Esmorecida chora por alguém
Por alguma coisa.
Ou mesmo, lamenta sem causa.
Por algo que nunca teve.
E insiste em permanecer...
Ora doce e suave.
Outras vezes amuada, amorroada.
Tendo o firme propósito de nos acabrunhar.
Às vezes cede-nos um intervalo...
Uma oportunidade para quebrar o cinza inoportuno.
E descobrir que o mundo é maravilhoso.

segunda-feira, novembro 19, 2012

Dor é a metamorfose em nosso coração


Dor... 
Nem sempre a compreendemos.
E ela nos retalha por dentro...
Aperta-nos a alma sem dó.
Entretanto quando alcançamos
A compreensão do seu propósito.
Ela nos aprimora...
A dor é uma fonte de sabedoria.
Ela nos torna mais equilibrados.
E passamos a agir com mais prudência.
Deixamos de supor... 
E avaliamos melhor nossas atitudes.
 Nossos sentimentos.
A consciência da dor nos faz refletir.
descobrimos que...
O que realmente nos importa
É a intensidade dos momentos vividos.
Ao fundo guardados.
Enquanto o suave da vida nos beija.
É a relevância das pessoas em nossas vidas.
De um tempo impreciso...
No todo da vida.
Dor é a metamorfose em nosso coração.


sábado, novembro 17, 2012

Há sempre um amanhã


A vida tem seus encantos, sua magia.
Ela ergue a barra da saia e caminha.
Tudo se modifica e continua...
Passado, presente e futuro.
Há sempre um novo começo.
Em cadência, o relógio do tempo escreve nossa história.
Já que o mesmo não é um senhor tranquilo 
Balançando em uma rede na varanda.
 Ele tece e deixa suas marcas.
E as tonalidades da vida muda a cada momento.
As cores precisam se espalhar e modificar.
Para terem a harmonia e a essência
Que nos acaricia a pele
Passo a passo da nossa viagem.

sexta-feira, novembro 16, 2012

Olhos da alma


Por entre a minha capacidade de ver
Para mim grande distância ainda é dentro.
Com os olhos alargados em delicadezas
E seguindo o coração vejo a alma do mundo.
Contemplpor cima de uma montanha
A outra montanha dentro de mim.
É daqui que vejo o horizonte
Sem linhas e infinito
Dando-me delicadezas aos olhos.
E não existe direção desejada
Para meu olhar...
Pois nada sei de nada
Aprendo com o vento
Que levanta a vida dos cantos
E convida-me ao enlevo
Num redemoinho de detalhes.
Encantando-me com suas cores e formas
Minha visão ascende-se e penso...
Nossa que mundo maravilhoso!
Tudo é questão de acreditar...
Minhas noites sempre têm estrelas
Meu céu é sempre azul
Em meu jardim sempre há flores
E em minhas flores sempre há mel.
Porque a vida cá dentro é muito mais...
Descobri-me um paraíso.

quinta-feira, novembro 15, 2012

Aconchego


Na inquietude do meu desespero
Na incompletude da minha alma
Você invadiu-me a casa num abraço.
E eu acreditei tão certo
Que você me teria ao seu lado
Para depois enxergar 
Que me tem é dentro.
Mansamente transpuseste-me o medo
Que me antecedeu a coragem de ter você.
Gentilmente 
Você me sorriu
E sorri de volta
Descansei dos pavores
Das incertezas e das dores
Na paz do seu sorriso
Não é aconchego o nome disso?
____
Após os temporais de quase uma vida
A quietude finalmente e suavemente
Acomodou-se ao fundo da minha alma.
E certamente compreendi
Que a paz é proporcional
A pureza dos sentimentos
E aprendi a dar espaço para ela.
É-me tempo bom!
Feitos de enternecimentos...
-----------
Há tanto amor abrigado nos seus braços
Quando em ti busco repouso
Que me é impossível não enternecer
Pelo lindo caminho  fizeste
Com teus laços de ternuras
Em volta do meu coração.

quinta-feira, novembro 08, 2012

Uma solidão a dois


As vezes sinto-me tão só em nós
Uma solidão a dois
Harmonizada de laços 
Estendendo os braços
Implorando por abraços
Atados, no tempo constante do depois
Ausências suas, tão minhas, a sós
Desatando o vazio, as estruturas soltas
O retraimento invadindo os nossos espaços
Estendendo em nossa orbita, os embaraços
Distribuído em um casulo cheio de voltas
Florescido de sombria indiferença
Regado pela falta da presença
Da paixão, do calor...
Anoitecidos pela carência do fulgor
Dos afagos das suas mãos.

segunda-feira, novembro 05, 2012

Arte abstrata


Pelas mãos do tempo a vida faz-me adulta.
Entretanto, sou a criança quando o espírito protesta.
É a face do passado fragmentado no presente
Mesmo quando a vida segue em frente.
E entrego-me à este refúgio complexo
Da infância impingida dentro de mim.
Menina? Mulher?
Refletidas em um espelho tosco.
Não consigo discernir a imagem a olhar-me.
Tortura-me essa menina-mulher
Esmoreço ante essa mulher-menina.
Em meu tronco entrelaçadas.
Diante do impreciso embaçado
Tateio a nebulosa figura.
Procuro por meus traços.
E somente diviso uma alma desunida
Arte abstrata de uma vida.


sábado, novembro 03, 2012

A minha oração


Eu gosto de prece que surge sem efetuar alarde.
De oração que surge do nada... Do tudo.
Quando meu olhar constata a grandiosidade de Deus.
Para a beleza da vida que acende ao meu redor...
Deparando-me com pequenas e grandes coisas.
Algumas tão singelas! 
Que às vezes, somente às vezes,
Parecem esquecidas de olhares mais atentos.
Entretanto sua candura resplandece
Na mais divina prece...
Quando ao meu olhar engrandece e a minha alma enaltece.
Gosto da prece de abrir os olhos a cada manhã.
Da benção que é me dada por mais um dia.
Perante esta resposta tão imediata de Deus à minha pessoa.
Sinto o meu coração elevar-se em forma de oração.
Por saber que uma vez mais
Poderei contemplar tudo e todos que amo.
Então minha alma se curva
Diante a grandeza de mais um dia...
De luta, de dor.
De paz, de amor.
De superação, ante as adversidades que se hão de surgir.
Umas com soluções céleres
Outras em uma velocidade mais lenta.
Todavia minha vida segue a correnteza...
O tic-tac do meu coração.
É quando ouço e faço a minha mais suave oração.


O que é bonito tem vínculos dentro do tempo e da distância. (May Lu)

Reciprocidade