REVELAÇÃO

Pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.


Oswaldo Montenegro

segunda-feira, novembro 05, 2012

Arte abstrata


Pelas mãos do tempo a vida faz-me adulta.
Entretanto, sou a criança quando o espírito protesta.
É a face do passado fragmentado no presente
Mesmo quando a vida segue em frente.
E entrego-me à este refúgio complexo
Da infância impingida dentro de mim.
Menina? Mulher?
Refletidas em um espelho tosco.
Não consigo discernir a imagem a olhar-me.
Tortura-me essa menina-mulher
Esmoreço ante essa mulher-menina.
Em meu tronco entrelaçadas.
Diante do impreciso embaçado
Tateio a nebulosa figura.
Procuro por meus traços.
E somente diviso uma alma desunida
Arte abstrata de uma vida.


sábado, novembro 03, 2012

A minha oração


Eu gosto de prece que surge sem efetuar alarde.
De oração que surge do nada... Do tudo.
Quando meu olhar constata a grandiosidade de Deus.
Para a beleza da vida que acende ao meu redor...
Deparando-me com pequenas e grandes coisas.
Algumas tão singelas! 
Que às vezes, somente às vezes,
Parecem esquecidas de olhares mais atentos.
Entretanto sua candura resplandece
Na mais divina prece...
Quando ao meu olhar engrandece e a minha alma enaltece.
Gosto da prece de abrir os olhos a cada manhã.
Da benção que é me dada por mais um dia.
Perante esta resposta tão imediata de Deus à minha pessoa.
Sinto o meu coração elevar-se em forma de oração.
Por saber que uma vez mais
Poderei contemplar tudo e todos que amo.
Então minha alma se curva
Diante a grandeza de mais um dia...
De luta, de dor.
De paz, de amor.
De superação, ante as adversidades que se hão de surgir.
Umas com soluções céleres
Outras em uma velocidade mais lenta.
Todavia minha vida segue a correnteza...
O tic-tac do meu coração.
É quando ouço e faço a minha mais suave oração.

quarta-feira, outubro 31, 2012

O eco do meu silêncio


Há dias em que o meu silêncio é eco mais alto
 Do grito que a minha alma pode dar.
A felicidade? 
Está em algum lugar onde haja sol.
Com um certo amargor na boca
Vejo que o tempo passou rápido demais.
Restando-me somente as lembranças
Um instantâneo para meus dias nublados.
As imagens vão chegando...
Fotografias tão presentes na minha memória.
De algo ou de alguém que ascendeu as minhas cores.
E uma espécie de centelha
Rasga-me o cinza melancólico.
Numa paisagem simples...
Que me ultrapassa a alma 
Em cores bucólicas.
Então ouço a voz do meu silêncio:
Ainda há tempo...
O céu nunca tem as mesmas cores.
E as nuvens jamais permanecem num mesmo lugar.


A voz do coração


Ontem eu fechei os olhos
Precisava olhar nos olhos de Deus
E pedir-lhe uma benção...
 Através dos seus sete olhos
Que a tudo vê!
E pela falta da possibilidade 
De estar olhando nos olhos do meu filho
Que minha visão excedesse o tempo
À distância...
Encontrando assim o olhar do meu filho
Voltado para o meu
Senti uma luz vindo de dentro de mim
Que me envolvia
E ultrapassava as barreiras
Então olhei dentro dos seus olhos
No âmago furacão de sua alma
Vi tantas perguntas sem respostas
Muitas das quais eu também não às tinhas
Eu sei que da vida muitas coisas eu vivi
E que muitas das minhas dores
Eu resolvi num abraço, no braço
Em silêncio ou no grito
Compreendi que não sou fraca 
E nem feita de aço
Sou apenas eu, a mãe, a filha
A irmã, a esposa... A vida!
Sendo vivida
A minha bagagem é esta...
Que o amor e dor andam de mãos dadas
O amor custa lágrimas, mágoas
E muitas vezes amamos só... Em solidão
O amor custa caro
Custa sangue!
Foi esse o preço que o filho de Deus pagou
Por amar-nos tanto
O amor é doação!
E são poucos que estão dispostos a pagar por ele
Com cuidado, proteção e perdão
Só quando a humanidade compreender isso
A felicidade não será uma mera passageira
Os momentos de paz não serão tão fugazes
Mas enquanto isso vou indo!
Caminhando, seguindo...
Tentando aceitar do tempo as suas definições
Da tão esperada felicidade!
E que longe ou perto
Estou e sempre estarei
Com o meu olhar sempre fixo no dele
Espero que ele me tenha compreendido
Que às vezes é melhor calarmos
Para ouvirmos a voz do coração
Somente ele pode nos guiar ao caminho...
Que há de ser seguido.

segunda-feira, outubro 29, 2012

Equilibrista


Se os teus dias estão nublados
E acaso a tempestade persistir
Dance na chuva.
Todavia se não sabe dançar
Rodopie, cante, ria...
Simplesmente sinta intensamente.
Traga o enlevo à alma
Abra os braços num abraço...
Banhando-se em águas límpidas.
Mormente entre uma nuvem e outra
Acalma-se o céu.
E de pingo em pingo escorre-se...
A dor, a solidão, a angústia.
De cada parcela sentida.
Pois todo sentimento há de ser vivido.
São todos fachada de uma mesma vida
Para que ela não se reduza a opacidade.
Esse é o grande mistério...
Permitir-se equilibrar no tempo.

domingo, outubro 21, 2012

Meu sorriso clichê



Quem me vê com esse sorriso abraçando todo um mundo
Às vezes se engana.
Só aqueles que já despiram meus sentimentos.
Tiveram a oportunidade
Quase sem querer
De enxergarem-me um tão explícito inverno.
Desembrulhando-se por trás da minha face.
Portanto para alguns é bem mais fácil supor…
Poxa, como ela é feliz!
Apenas para ficarem com a boa impressão.
Pela conveniência de não lhes terem aos olhos
Uma alma vulnerável.
Por que se importariam?
A minha ferida não lhes doem.
sangue a escorrer-me não lhes tinge de escarlate...
O perfunctório dos corações.
E supostamente me retribuem o sorriso
Sem fitarem-me o olhar.
E eu da minha parte lhes poupo de tal embaraço
Ao usar esse sorriso quase clichê no rosto.


Porquê ser feliz em doses?


Às vezes é tão difícil insistir em alguém
Acreditar em possibilidades...
Enxergar até quando nossos olhos dizem não.
E a realidade mostra-se de uma forma tão clara.
Fico a perguntar-me
Se não seria melhor abrir mão...
E deixar de cultivar o sofrimento
Por que ser feliz em doses?
Persistir em algo que vai doer muito mais depois.
E brigar por um sentimento onde não existe abrigo...
Plantar sementes em solo infértil
É machucar toda nossa essência
Alimentando o que não se tem esperança.


quarta-feira, outubro 10, 2012

Quando sopra o vento


Quando sopra o vento 
A sensação é que desloco junto com ele
Translado meus abismos profundos
Perdidos e mil vezes achados
É quando se abrem as cortinas
Ora a mulher gloriosa
Florida, transparente
Ora a outra solitária
 Perdida, carente
Ora ri, ora chora...
A mulher em tons de aquarela
A outra sem rima nas cores
De um lado a alma sem véus 
Do outro a máscara obscura
Fragmentos de uma alma partida
E quanto ao amor?
Entrego-me...
Sou eu por inteira, verdadeira.

segunda-feira, outubro 08, 2012

Agradecimento à poesia... A mão de Deus



Hoje?
Só quero agradecer...
Aos roseirais  com seus galhos entrelaçados
E a delicadeza das cores das suas flores 
Há embriagar-me com seus aromas
Lentamente divago...
Embarco no caminho das nuvens
Que me oferece os voos
E timidamente bato minhas asas
Perambulando pelo firmamento
Com o olhar sempre adiante...
Minh'alma conversa com as estrelas
Encanto-me pela lua, tão cheia de segredos
A brilhar na escuridão
Tantas madrugadas!
Orvalhando minhas manhãs
Em frenesi rodopio aos primeiros raios do sol
A derramar calor aos corações dos homens
No vencer...
... No perder!
Despindo suas almas, escoltando seus sonhos
Quanto céu!
Hoje?
Quero agradecer ao gozo dos ventos
Em idas e vindas
A trazer-me mistérios
Fazendo-me cavalgar as ondas do mar...
Repartindo, compartilhando 
Sua imensidão,
O mais puro lençol de cetim
Tanto mares!
A dádiva das estações do tempo
Onde a vida começa...
... Termina
Eclodem em uma combinação de cores e sons
Arrepio-me...
Ao bailado colorido das aves 
A imponência de seus movimentos
Cortando os céus
Ah! Como me emociono...
Com as cores da magia 
Do balé das borboletas
Nas janelas da minha vida
 Terra! Abençoada morada.
Onde entalhei o meu ninho
Bendito universo... Mão de Deus!
Hoje agradeço
Por me ensinar poesia.

Viagens em teu jardim


Hoje há somente afagos em minhas mãos.
Trago-as molhadas de orvalho
Para que nunca deixam de florescer.
E suavemente amanheço poesia.
Meus pensamentos sobrevoam
A imensidão do tempo.
E cá estou eu.
Devaneio...
Passado, presente e futuro.
Divago em rimas e estrofes.
Palavras ganhando vida... Minha essência
Em viagens de idas e voltas.
E aqui em teu jardim
Faço-me brisa a desfolhar as tuas rosas.
Que se descortinam em idílio.
Embaralhando no ar doce perfume...
 Fragrâncias que recolho
Para o meu aconchego inspirar.
Um interlúdio de sentimentos
Onde se sobrepõem os pensamentos de um poeta.


O que é bonito tem vínculos dentro do tempo e da distância. (May Lu)

flores