REVELAÇÃO

Pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.


Oswaldo Montenegro

sexta-feira, maio 18, 2012

Essa dor que aqui sangro


Entre a sensatez e a loucura
 Percebo que não existe mais cura
Hoje vou pegar todas as cores 
E sangrarei em uma só
Em vermelho escarlate
A escorrer-me nas pontas dos dedos
 E finalmente tudo virara pó
Ceifarei as promessas
Desgarrarei dessa teia
Hoje é um dia de inverno duro
Acabou os sonhos
É esse o momento da verdade
Onde tudo foi feito por mentira
Não há mais como deixar guardado
Não há mais nada a ser selado
Nada mais pode ser colado
Essa dor que aqui sangro
Foi tudo que me restou.

segunda-feira, maio 14, 2012

É frio, é chuva lá fora


A alma chora 
É frio, é chuva lá fora.
É chuva cá dentro
É chuva que chora
Um choro contínuo,
De alma molhada.
São lágrimas frias e finas
Em forma de garoa.
Que me molham os gritos...
Gritos que ninguém ouve.
Gritos de alma ferida...
Vindos da alma gelada.
Então como falar de vida?
E pintá-la em arco-íris
Se as cores me foram lavadas.
Já escrevi de carinho
De afeto espalhado pelo caminho.
Já escrevi um poema colorido
Tendo o coração dolorido.
Somente para enfeitar
E ver a alegria brotar...
Aos olhos de quem me lê.
Entretanto,
Não eram palavras minhas.
Eu não me via estampada nas linhas.
Aos meus olhos chegavam 
Apenas contornos sem tintas.
Não há cor que me fende 
Não sou colorida por dentro.
No peito trago a herança
Das folhas secas do outono.
Eternas folhas cinzentas!
Foi quando então decidi
Escrever do meu reflexo no espelho.
Aquela que vive na penumbra
De uma distante infância.
Na chuva fria e contínua
Permanece a criança.


(Poderia pintar-me cor verde esperança
Para depois quando a máscara cair
Retocar-me cores de cinzas...)


domingo, maio 13, 2012

Palavras emudecidas


Somos todos cercados de grandes silêncios
À espera das palavras certas
As que retêm a claridade 
Dos mais profundos sentimentos
Retidos na memória...
Carregada de feridas,
Dores e cicatrizes 
Adquiridas ao longo de nossas vidas
Das quais nunca nos curamos
 É no silêncio de nossas almas
Que perduram tais sentimentos,
É onde enterramos vivos 
Tudo que nos queima
Recobertos por uma perenal neblina
Uma espécie de laços e nós
Somente assim respiramos
lentamente
Com medo que algo se desate
 desabe
Cá dentro,
O medo está sempre lá
No profundo,
Querendo nos sufocar
Por entre suas mãos de folhas secas
E nos obriga a encolhermos em silêncio
E ficamos sempre à espera...
Das palavras certas
Palavras emudecidas.

O silêncio entre as palavras


Às vezes, 
A maior distância que existe
É o silêncio entre duas pessoas
O silêncio entre as palavras
 E se torna tão fácil 
Segurar as palavras entre os lábios
Sobretudo quando elas escoam dentro de nós
E se unem numa muralha intransponível
Ascendendo há uma altura sem dimensão
Ficam lá, silenciosas.
Ao mesmo tempo em que...
 Ressoam jorrantes e catárticas
Por todo o ventre das nossas almas
Agitam-se violentas e venenosas
Absorvendo-nos a ternura
Das almas que choram
À espera
De serem lançadas em êxodo
Numa enxurrada de palavras ferinas
No mais inteiro e absoluto vulcão
Onde tudo troveja e explode
A face um do outro
E aos poucos nada mais existe
Nada mais se renova...
E das mais lindas palavras ditas
proferidas
 Por duas almas apaixonadas
Somente sentem-se os ecos
Cravados no peito
Rendidas, 
Pelo cansaço da luta inglória.

(O silêncio tem o poder de unir e desunir pessoas.
Às vezes as palavras precisam ser ditas 
Nem que sejam pelo silêncio de um olhar,
Para que a magia possa continuar...) 

Rosas de pedra


Que estou aqui é um fato
Dentre do que nem sei onde.
Na penumbra... 
No interior cinzelado das sombras.
E nada no meu intimo se traduz.
Apenas sinto...
 A pulsação da solidão.
Sinto que morri um pedaço enorme
Onde a primavera existia.
Onde cantavam as cotovias
E piavam as gaivotas.
Mas atualmente
A noite adensa-se obtusa 
Na pele assinalada.
E sem nada que me identifique
Escorro pelas pontas dos meus dedos...
Por entre os escombros
Do tudo que me resta.
Desejosa de escoar-me em ramos
Desabrochar-me-ei 
Num reflorir entre o cinza do mar
E o negro do céu.
Nem que me seja em rosas de pedra.

Há de chegar um dia


Há de chegar um dia que a mim
A chuva miudinha haverá de cair.
Lavando-me as arestas ásperas... 
A arder por entre o lume do meu silêncio.
E desabrocharei ao som do meu canto.
Anseio de alma e coração aberto
Que os meus sonhos não se distanciem
De uma realidade futura...
Onde os estilhaços da tristeza não me atinjam
E nem me aflijam as borboletas do peito.
Que ao alcance da promessa
Possa brotar-me a esperança... 
Do peitoril dos meus dias ensolarados.
E de minha garganta estéril ouvirei o meu canto
Como um pequeno animal que uiva...
Ao beber no regato de uma grande fera.
Quiçá nesse momento
Os meus olhos abertos perscrutar-me-ão...
 E eu não verei nada mais, além de mim.
Do meu destino prescrito
Nas linhas apagadas das minhas mãos lavadas.
Tal qual fênix emergindo das cinzas.

sábado, maio 12, 2012

Delírios na palma da mão


Apetece-me ser o teu cais
Só para te ver chegar
Para quando a mim voltar
Em meus braços descansar
Apetece-me ser tua madrugada
Só para te ver em alvorada
Ao toque das cornetas amanhecer
Em gorjeios da paz anunciada
 Ladainhas em trigo e mel
Apetece-me ser o teu céu
Só para estar contigo em viagem
Abrigada por tuas asas
Que sobrevoa pela imensidão 
Apetece-me ser o teu espaço em negro
Para que preenchas meu espaço em branco
O dia e a noite em risco no papel
O inquietante universo em versos
 Há esboçar-me o lado de dentro
O lado que me espera
Apetece-me ser as cortinas dos teus olhos
 A desvelar-me em íris própria
O meu obscuro prisma 
Na luz que nos fende por dentro
A cavar nossos silêncios...
E ficarei no teu silêncio
Apenas a descansar!
Apetece-me ficar as margens do tempo
A espera do sopro do vento
 Para que me bafeje a vela do barco 
Enquanto,
Respiro devaneio
Delírios na palma da mão
Na espessura dos meus dedos
Desabrochando em espera.


sexta-feira, maio 11, 2012

A outra face


Que os nós de minha existência sejam desatados
Que todos os meus fragmentos sejam atados
Para que eu possa dar novas formas
Ao imaginário de minha memória
E que novamente tenham unidos
Todos os meus sonhos reciclados
Que todos os sentimentos misturados
Tornam-se a essência cristalizada
 E que me faça acreditar 
Na força que retenho em mim
Na leveza de minhas asas soltas
Por entre as pontas dos meus dedos 
O transportar desse perpétuo instante
Da mulher em preenchimento
Carente de amores, carinhos...
Ainda em devaneios
Tais como as fantasias
Que almejam a realidade
Sem lógica compreendida...
A outra face de mim
É que insiste em habitar no vazio
Entre as linhas do pentagrama
Dentro do meu coração
Ausente das notas musicais
Nomeadas por sensações!



( Matheus Rodrigues Aguillar Gera)

quinta-feira, maio 10, 2012

O peso que carrego



Trago em mim, de todos os sonhos,
 Os cacos.
 É esse peso que tenho em meus ombros.
Desde há muito tempo os suporto...
E os carrego na mochila.
Como se fossem um salva-vidas
De todos os sonhos que já sonhei.
Dos tempos em que acreditei
Com a liberdade de voar...
Vôos além do infinito
Entre o sol e o luar!
É esse peso que me sustenta
E não me deixa afundar.
Enquanto desço entre as pedras
Deste rio a desaguar.
Quiçá tudo mude em breve
E sobre águas mansas vou navegar.
E de todo esse peso 
Vou poder me libertar.




quarta-feira, maio 09, 2012

Confisco de emoção!


Esse não é um poema de solidão
É sobre essas figuras enigmáticas
Que tomam conta de mim
E me deixam sem resolução
Somos unidas por cumplicidades
E por ausências...
Vivo a mercê de todas
Confiscada em minhas emoções
Tenho em mim todos os extremos
Vou da alegria as tristezas mais profundas
Tento me esquivar
Acreditando que tudo vai passar
Procuro me defender
Mas minha alma se entrega...
Entre o risco de se romper
A procura do equilíbrio
Às vezes fico imaginando
Se esse cárcere 
Não fui eu mesma que escolhi?
Por questão de sobrevivência!
E que todos esses excessos
Sejam para minha proteção
Que talvez seja melhor eu estar segura
Por um cordel de emoções
Que talvez não me sustentar pela solução
E acabar perdida em minha procura
No profundo da escuridão!


O que é bonito tem vínculos dentro do tempo e da distância. (May Lu)

flores