REVELAÇÃO

Pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.


Oswaldo Montenegro

terça-feira, março 13, 2012

Campo da batalha


O caminho foi traçado
As escolhas foram feitas
aceitas 
Através dos sentimentos
Mesmo não tendo previsão
Do que encontraria a cada passo dado
Nem sempre foi fácil de ser delineado
percorrido
De não se ter pego um desvio
Foi um caminhar marcado
De luta...  De sangue
De noites solitárias
No campo da batalha
De velhas bruxas desdentadas
desgrenhadas
De risos escancarados
Que lhe tolhiam as forças
Nunca esteve só
A sua volta as arvores queimadas
carbonizadas
Balançavam em seus ramos secos
Os enforcados
Fantasmas de suas outras batalhas
De outros tempos
Porém mesmo agora 
Em tua força vacilante
Segue em frente sem olhar pra trás...


A sepultura é viva


Quando eu morrer quero ser cremada.
Passei minha vida toda dentro de um caixote...
Em clausura 
Metida no centro de um abismo.
Não quero ninguém usando preto!
Já usei luto, por mim mesma a vida inteira.
Essa coisa de vestindo por dentro...
O negro, ébano profundo.
Sou feita de dedos 
Que vivem tocando as próprias feridas.
De bocas rasgando a carne em busca de ar
Enquanto me afogo no meio do sangue.
Caminho descalça sem deixar pegadas...
Transito sobre as brasas
Que me deixam a alma em bolhas.
Sem escolhas retenho o cárcere-martírio.
Levo o ventre cheio de adeus 
Gestante dos meus fantasmas...
Onde os mortos me entregam flores.
Queria ao menos deixar rastros escarnados
Meu sangue purpúreo 
Deixado na fuga.
Quem puder que se salve
Eu já não tenho cura...
Sou o suspiro.
Ai de mim!
Acendam-me uma vela.
A sepultura é viva
O sepulcro é aberto
Conservo o corpo em êxtase 
À hora extrema.
Espalhem as cinzas aos ventos...
Haverá redenção? 

À criança presa num corpo de mulher.

segunda-feira, março 12, 2012

Presa pelo anzol


Ainda sou um corpo
Uma isca
  Dentro de um oceano 
Que me arrasta
E me afoga
Presa pelo anzol
Em suspenso
Sangro um pouco mais
À espera da alforria
Quando o ventre da terra
Irá me transmutar em pólen
Germinar alma livre
Em emanação...

Extrema-unção


Traz nas mãos a ilusão
Esta nua e sem visão
Vazou o sangue
Dos olhos da alma
De tanto tatearem caminhos
Os dedos pedem redenção
Recolhem-se... À espera
No ventre do tempo
Que se cave a vala.


Eu... tu O tempo


Nada vejo do tempo
Além da nudez do corpo
Imagens de um torso
Sem rosto
Eu... O tempo
Sem paisagens
Coexistindo juntos
Em silêncio
Sonhando
Acolher as mãos cheias
De flores.

alma que caminha só


Quando se caminha só
É uma estrada solitária e longa
O coração é ilha perdida
É alforria no peito
É mergulho no profundo do mar
Mesmo que mire o horizonte
Pouco se sabe do futuro
Alma que caminha só
Sem querer bem ao corpo
Soturna tua chama
Segue por um mesmo caminho
Sem busca
Solidificada em noite
Só te resta morrer.

sábado, março 10, 2012

Não basta só seguir em frente


Pegar um atalho nem sempre significa 
encontrar a felicidade
Se não te preocupas para onde ir
Não te importas o caminho a frente
Não basta só seguir em frente
Temos de ter a capacidade de observar
A simplicidade das coisas
Nem sempre visível aos nossos olhos
É um caminhar para dentro de nós mesmos
Em busca da fonte
Se partirmos do princípio 
Certamente alcançaremos o ponto de chegada
E estaremos caminhando com a certeza
De estarmos no caminho certo.

O amor na semente


Como é bom olhar para a mesma coisa
E ver de modo diferente
Visualizar com nitidez
O que eu conhecia desde o principio
Só que agora vejo com outros olhos
Sob outro prisma
O primitivo extraído
Puro e genuíno
cônico
Que nasce na axila da folha
O primeiro elemento dos ramos
Antes do seu desabrochar
O botão
O amor na semente.


Amor feito vinho


Hoje eu quero alguém que me descortine
Que me enxergue essência da mulher 
Que esqueça as rugas em volta dos olhos
E se note refletidos neles
Que veja o amor espelhado
A profundidade dos sentimentos
Que me sinta do coração os batimentos
E a minha capacidade de amar
Não quero o limitado
Espero o infinito
A sinceridade da relação
Que petrifica contra as forças do vento
Sem necessitar de palavras
Somente a emoção sem tradução
Amor que dure ao tempo
Onde tudo o mais é esquecido
Atados por laços sinceros
Onde o silêncio seja a retórica das almas 
Da união dos espíritos
Que não se mude
Não se curve
 Seja inabalável a tormenta
Quero o melhor do amor
Feito vinho envelhecido pelo tempo.

sexta-feira, março 09, 2012

Quero as réstias de sol


Quero as réstias de sol
Entrando por minhas janelas
No mais puro amanhecer...
Das chuvas de verão
 Quero beber
Ao molhar meu coração
Nas manhãs de dezembro
É tempo de águas abundantes
Tons cinza no céu
Muito além do azul
É tempo de colheita
 Do despertar do mundo 
Com o cheiro de frutas maduras
 A natureza se oferece a safra
Vou viver mais o hoje
Não me importa o depois...
É temporada das mangas.


O que é bonito tem vínculos dentro do tempo e da distância. (May Lu)

flores