REVELAÇÃO

Pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.


Oswaldo Montenegro

segunda-feira, março 05, 2012

O céu me sorria


Amanheci debruçada sobre o mar
O céu me sorria
Lançando-me pitadas de ouro
Enquanto pelo azul escorria
Sorrio à brisa que agita o silêncio
Espalhando no ar melodias
Sou navegante sem terra
Tenho a alma a velejar
embalo 
Meu corpo ao som da maresia
retenho
As lágrimas do mar 
Nas pupilas dos meus olhos
São lágrimas de conhecimento
De desbravamento
Por regiões inóspitas
aprisiono
O brilho do sol
Nas pontas dos meus dedos
embebedo-me
Dessa luminosidade intensa
Que ilumina minha rota
A cada amanhecer...


A alma do mundo grita


O tempo se fundia de esperança
Na promessa de bons tempos
De reencontros... Sem despedidas
Depois de tantas partidas
O sol invadiu a manhã
O vento se espalhou
Em brisas perfumadas
De gozos... aromas
Poentes...
Do barulho das tempestades
Das guerras
A alma do mundo grita
Por paz... calor
 Tem desejo de vida
Finalmente Flutua
Ávida de beleza... De pureza
Sem saudosismo
Sem o soluço dos ossos
É tempo de poema... De fé
O máximo que a terra permite
É um até breve...


Jogo de azar


Eu sigo arriscando
Para me livrar do tormento
Da loucura
As minhas outras
As não conhecidas
Só ouço sussurros
Tecem suas teias
Jogam o jogo
Chamam por mim
Jogo de azar 
Se eu ganho me perco
Se eu perco
Perco-me mais ainda
No labirinto estreito
tortuoso
Jogo as cartas
E observo
O que me acontece
Mas não me decifro
Só estarei livre
Quando acabar o jogo
Não haverá vencido
E nem vencedor
Caminho sem rastros 
Sem curinga...

O reflexo que me olha


 Ando desfigurada 
Vejo a mim
De dentro
Na imagem que eu sou
Não encontro 
As mãos que me anelam
Que me salvam
De me perder
Arrepio em espanto
Do reflexo que me olha
transfigurada 
Na mulher do retrato...
Decifra-me sem palavras
O secreto... O incógnito
&
Meus olhos dizem
Que sou outra...


Na esfera... À espera


Do abismo vê-se o céu
Em movimento... Na esfera
Estamos todos 
Sob o mesmo sol
Olho-me sem espanto
Em encanto
Rasgo minhas entranhas
E contemplo
A mulher
Fenda de mim
Na esfera... À espera
Que me arranque do peito
O coração
Pulsante... vermelho
De vida
Dilatando-se no espaço
Em conhecimento
Com o desconhecido
Num ritual atávico
Dos amanheceres
Fora e dentro de mim
Dizendo-me que respiro
Da neblina dos tempos
Encontro-me.

Aprendi a crescer mais um pouco


Adquiri conhecimento
Com os meus des-pertencimentos
De minha presença
Em busca dos si
Rompi as barreiras 
Quebrei a cadeia
Do despercebimento
Visto que,
No horizonte existe o sol
Olho-o e vejo-o
E a cada dia que vivo
O vento sopra...
Respiro... inalo
O pertencimento
De mais um dia vivido
Com dignidade
Sabedoria...
Aprendi a crescer mais um pouco
Não me cabe
Contestar o tempo... O vento
Eles já existiam antes de mim
 Que os erros... O passado
Não devem escurecer
Um presente de ajuste
De acerto...
Contudo estar certo
Não quer dizer
Que não vou errar 
novamente
Mas sim que estou
aprendendo
Com os meus erros
Compreendi que é preciso
Perdoar-me
Para dar o perdão 
Aos que estão a minha volta
E que se não deu certo
Parto do começo 
novamente
E de novo
Quantas vezes for preciso
Aceitei que existem outros rios 
Que deságuam no meu mar
Aprendi a ser eu mesma
Não importa a maneira que sou
Desde que seja a essência
E que sempre devo
Ter o reconhecimento
De que estou viva
&
Ser agradecida
Assim, 
Sigo...
 Vivo um dia de cada vez...

Biografia incompleta


Já achei que escrevendo
 A verdade se revelaria
Grande equívoco foi o meu
Continuo a mesma
Perdida entre rabiscos
Incógnita... inquieta
deslocada
 Biografia incompleta
inacabada
Versos sem poesia
Foco retalhado no espelho
Das minhas ilusões
Onde sonhar é perigoso
Porém necessário
Pois continuo...
 Presa nas linhas
Do poema sem pele
Descarnado no papel.


As serpentes serpenteiam


O silêncio chega a ser rude
Em sua quietude
Prefiro o agravante em palavras
Pois o que vejo
Não é uma serenidade passível
É algo cortante
Que me fere... Congela-me
Pois dentro dessa passividade toda
Existe uma fúria que me cega
Que me vem feito brisa
A espera de uma fresta
Para virar um tufão
Essa minha amenidade
Assusta-me... Confunde-me
Pois sei que no profundo 
As serpentes serpenteiam
O tempo todo à espreita
Que eu abre as janelas
E solte as minhas feras
Feridas de loucura.

domingo, março 04, 2012

Hoje me falta a alma


Hoje me falta a alma 
Que procuro 
Mas não vejo
Nem sei como respiro
suspiro
De lábios entreabertos
Absorvo e lamento
O vazio
Sinto-me assim como neblina
Que dissipa
Talvez eu seja só os pés
Plantados no jardim
Despetalada... destituída
De sentimentos
As flores foram colhidas
E jogadas dentro d´poça
Sinto-me só...
Só murmuro
Vencida... 
Sem mim.

Onde moravam violetas azuis


Nos meus olhos um dia brotaram flores
E ousaram pousar as borboletas
Hoje são por eles que busco a fuga 
Tento escapar de mim
Pelas órbitas dos meus sonhos
Por onde fujo só em trapos
Por eles me espio dentro de mim
E não vejo mais a chama
No fundo do meu olhar
Onde moravam violetas azuis
São cactos que me olham de volta
Deixei cair o véu
Já não avisto mais o céu
Despojos são tudo que restam
Preciso me olhar nos meus olhos
Para acreditar que é hora de mudar
E arrasto-me pelas janelas da visão
Escapando do subterrâneo
Profundo... escuro
Da minha existência.



O que é bonito tem vínculos dentro do tempo e da distância. (May Lu)

flores